2008-03-14

Havemos de voltar ao princípio  
e dançar juntos de encontro ao esquecimento.

Decerto não chegarei outra vez a tua casa  
é improvavél que encontre o caminho do regresso.

Os meus pés enredam-se-me nos cabelos
e estou cansado de lutar contra os infindáveis muros
de tecido capilar
a máquina brutal da teia dos discursos de deus.

Crescem-me das mãos dez navalhas
cada uma é uma faca para encontrar o caminho
cada uma é uma faca apontada ao esquecimento
cada uma é uma faca apontada à própria palavra esquecimento
ou às palavras caminho e esquecimento.

Guardo nos bolsos os papéis que me deste  
os nomes que inventaram cada uma das letras do alfabeto
a letra que desenhou os números e os dias da semana.

Estou aqui deitado a contar os dias, sabes
não sei de onde me nasceram as raízes que tenho nos olhos
cada uma é um rio nos espelhos, um pedaço de mim nos espelhos
como um barco ancorado ou à deriva neste século.

Escrevo para combater a loucura de morrer por dentro 
lembrar a pré história de existires comigo, quando foi?
não sei quando nasceram estas cicatrizes na carne ou nos olhos 
decerto no teu primeiro grito 
como cem violinos no mais fundo de mim
um hino à certeza de aqui ficar com a certeza de aqui ficar.
 
Vou esperar que o calendário nos traga de volta
e me devolva na pele os anos perdidos nestes papéis.
que me devolva a certeza  
de não esquecer
de ficar noutros séculos a lembrar  

o dia em que hei-de voltar meu amor.

para a Ana Beatriz, para o seu dia do pai.  A Gulliver que é o herói dela.

1 comentário:

Nuno Garrido disse...

O que nos faz perder o rumo das emoções são os filhos. Mas nunca nos deixam perder o fio da razão e com esse fio, o caminho. O meu filho é a minha vida.

Sublime caro amigo.