2010-04-09

Bem sabes que não sou capaz
de dizer adeus
porque o amor tem sempre
a impossibilidade
da despedida
por não haver nele
nenhuma forma de morrer
como a luz do crepúsculo
que quando aqui se apaga
é para fazer dia noutro lugar.

E por isso não julgues
que tenha perdido
o norte
dentro da estátua de mármore
em que me transformaste
ao sul
dos teus olhos.
Como uma ostra no fundo do mar
vou depositando esta pérola no coração
para te deixar.

2010-03-12

Esta noite serei um gato
a miar à tua janela
e trarei comigo
o mar dentro de um búzio.
Serei um peixe nas tuas ondas
Mediterrânicas.
Um polvo no teu fosso
Índico
Um mergulhador
na espuma da orla
Atlântica.
Um peixe-gato no oceano
Pacífico.
Um cavalo marinho
a trote
e a galope
o Mar Morto.
Esta noite. Só.
Serei um gato
Ou peixe gato.

2010-03-04

Todas as mulheres são árvores declinadas
com os seios pendidos como pomos
arrojados à firmeza dos dentes
de gatos que ascendem com suas garras

e afrontam felinos as nádegas
subindo e descendo pelo seu tronco
para atravessar uma faca
na estreiteza da corrente

dessas mulheres que são vulcões tenebrosos
com fundas fossas de um abismo oceânico
donde se desprende a sua lava menstrual

dessas mulheres como peixes num aquário
à espreita da sua eternidade
ou da rebentação de uma onda de espuma

que lhes restitua num fôlego
o gemido.

2010-03-03

Porque já não há em casa
cobertores suficientes
que nos agasalhem
do inverno glaciar
onde caímos
e nem os papéis
nos bastam
para atear o lume
é urgente
inventar o amor
(...)
Como se escrevessemos
a branco o clarão
para não mancharmos
de tinta a neve
nem a condição
do poema.

2010-02-23

Era uma vez uma borboleta pura
cuja essência
era a ideia do seu ser
dentro de um casulo
a saber - uma lagarta.
Era por isso uma triste
e contemplativa borboleta
como um poema ferido na sua condição
concebido por um filósofo
idealista na construção
dialéctica de um sistema
onde a antítese
da borboleta
era o ser de um insecto
nocturno - uma traça.
Dois pares de asas membranosas
cobertas de escamas
e peças buçais adaptadas
à sucção das páginas
de todos os nomes do dicionário
com uma apurada capacidade
de mastigação do papel
definiam a natureza voraz da lagarta.
Uma assassina larvar inteligível
transformada pelo impulso
sensível do poeta
em mariposa.

2010-02-21

Se eu fosse uma gotinha de água saltava das nuvens
e aterrava na terra.

Se eu fosse uma gotinha de água regava os campos
e as flores do jardim.

Se eu fosse uma gotinha de água do oceano era salgada
e nadava nas ondas do mar com os peixes.

Se eu fosse uma gotinha de água era muito redonda
e límpida e transparente.

Se eu fosse uma gotinha de água deixava-me
beber para não morrer à sede.

Ana Beatriz Costa de Oliveira (8 anos)

2010-02-11

Se eu morrer ainda novo
e a minha vida
desanimar estas mãos
como um fósforo
pronto a queimar-me
nas pontas dos dedos
(...)
é melhor
que recordem
a luz
porque sempre
tive medo do escuro.

2010-02-02

Até que um dia o sol
penetrou no quarto
através da vidraça
e disse que a luz que lá havia
era o ardor de uma menina rebelde
com as órbitas dos olhos paralisadas
pelo espanto da combustão do seu coração
como os motores de um avião a jacto a arder
e a despenhar-se
com as suas asas transformadas
em duas bolas de fogo
como se fossem as asas de um anjo
inventado pelo malabarismo do poeta
para cantar o amor
para dentro da página em branco
para cantar a sua loucura
interior.

2010-01-15

Trazia na cauda um raio
quando poisou no parapeito
do ventrículo esquerdo
deste tronco de árvore
que ainda sou
e como um cometa
vil e cortante
de meteórico metal
e bífida
e lâmina língua
com veneno lume
a minha seiva verteu
no confim deste chão.
(história do último desejo do homem que queria ser poeta)