2010-01-13
E se algum dia um psicanalista
me acusar de egocentrismo
e disser que finjo ser poeta
para fugir à realidade
e que cada verso
é uma tentativa absurda
de superar um desejo recalcado
direi que sim!
Direi que sim
porque quis escrever estes versos
enquanto não fazia outras coisas.
Depois desenharei ao psicanalista, uma mulher
redonda, uma mulher prenhe e redonda
tão redonda como a terra
mas talvez menos achatada no pólo sul
e com um fosso Índico onde nadam os peixes
dentro da vagina para rebentarem cabeças de alfinete
ou girinos à espreita de uma oportunidade
cirúrgica para dilacerar a sua fonte.
Desenharei sim!
Uma mulher prenhe e redonda
com dois relevos a norte donde nascem
rios de leite para matar a minha sede.
Desenharei sim!
E concluirei que não sou egocêntrico
mas um geocêntrico disfarçado de charuto
sentado à secretária de um consultório de psicanálise.
(história do último desejo do homem que queria ser poeta)
2009-12-28
e eu te encontre quando o sol estiver no momento do entardecer
não sabendo se vá ou se fique, amanhã vemo-nos de certeza.
Depois da tua aula de anatomia, depois da minha de geografia.
Vemo-nos porque tem de ser assim, vemo-nos porque os porquês
já não se admitem hoje e por isso é mais prático que nos vejamos.
Porque a tua é uma aula simples sobre o corpo
e a minha, igualmente simples, mas sobre a terra.
Vemo-nos depois das aulas que podiam ser ambas de metafísica
porque ambas são as duas, a minha e a tua estão antes da realidade
do mundo, do amor, da liberdade e da vida.
Vemo-nos amanhã, porque amanhã é um novo dia
os outros passaram na convicção histórica do que aconteceu
e filosófica futura do que teria sido se não acontecesse - assim.
Porque o sol não deixará de aparecer até que o último homem comprove
e na sua derradeira aparição o faça sorrir de tédio ou de cansaço.
Por saber que milhões e milhões de vezes o sol inspirou a vida
e a vida reconheceu a luz até à noite, amanhã vemos-nos.
Tu despida com a pele daquele vestido de seda ou de cetim
que te torneiam o corpo de mulher pronta e madura.
E eu despido também, mas com um nó de certezas na gravata
de que essa tua aparição é tão exacta como se estivesses
de bisturi na mão pronta a abrir-me as entranhas
na convicção de recolheres nas vísceras a minha alma.
Estarei com as mangas da camisa arregaçadas
para que comproves que os meus braços
em volta do teu corpo têm a mesma latitude.
Vemo-nos amanhã, para nos tornarmos
anatómica, geográfica e histórico-filosoficamente unidos
num abraço que dispensa o sol.
Afinal a noite traz o benefício de guardar a luz
para que os homens e as mulheres se conheçam pelo tacto.
Pour Ana Beatriz et son héros Gulliver
Tu verras, nous retournerons au point de départ
Et nous danserons ensemble vers l’oubli.
Peut-être que je n’arriverai plus chez toi
Il est peu probable que je trouve le chemin de retour.
Mes pieds s’emmêlent dans les cheveux
Et je suis fatigué de lutter contre les interminables murs
de tissu capillaire
la brutale machine de la trame des discours de dieu.
Dix canifs poussent de mes mains
Chacun est un couteau pour trouver le chemin
Chacun est une arme blanche pointée vers l’oubli
Chacun est un couteau pointé vers le mot oubli
Ou aux mots chemin et oubli.
Je garde dans mes poches les papiers que tu m’a donné
Les noms qui ont inventé chaque lettre de l’alphabet
La lettre qui a dessiné les numéros et les jours de la semaine.
Je suis couché à compter les jours, tu sais
Je ne sais pas d’où me sont nées les racines que j’ai dans les yeux
Chacune est un fleuve dans les miroirs, un morceau de moi dans les miroirs
Comme un bateau ancré ou à la dérive dans ce siècle.
J’écris pour lutter contre la folie de mourir à l’intérieur
Me souvenir de la pré histoire d’être lá avec moi, quand était-ce ?
Je ne sais pas quand sont nées ces cicatrices dans la chair ou dans les yeux
Certainement dans ton premier cri
Comme cent violons au plus profond de moi-même
Un hymne à la certitude de rester ici .
J’attendrai que le calendrier nous ramène vers le début
Et me rende dans la peau les années perdues dans ces papiers.
Qu’il me rende la certitude de ne pas oublier
Et dans les autres siècles de me souvenir
Du jour où je reviendrai, mon amour.
(agradeço a tradução à minha amiga e colega Sílvia Rodrigues)
2009-12-03
2009-11-27
agora que já não me ouves
gostava ainda de te dizer isto
quando te disse que te amo imaginava
ainda que continuaríamos de mãos dadas
como duas crianças no regresso da escola
mas acontece que na casa nova onde moro agora
há apenas as flores que me trazes aos sábados
e a caixa dos ossos onde me meteste num domingo
e por isso lembra-te que quando parti não foi porque
me tenhas dito que aquela casa onde moravamos os dois
era tua, só tua, de mais ninguém
não tens que te sentir uma assassina por me terem
encontrado morto se apenas pediste para te deixar só
porque no fundo eu só mudei de casa
meu amor.
(história do último desejo do homem que queria ser poeta)
2009-10-09
em que talvez encontres
o portão de uma velha casa.
Atreve-te a entrar - avança
um a um os degraus
até encontrares o quarto
onde encerrados
os meus olhos
se alagam de castigo.
Abre depois as janelas
para que a luz
se reflicta nas águas
onde mergulhado
eu sonhava
o infinito das horas
em que entardecias.
Dar-me-ás às mãos
o teu corpo a beber
e como se tu fosses
uma árvore,
eu felino
escalarei o teu tronco.
Ou como um pássaro,
me abrigarei dentro de ti
e quererei fazer ninho
dentro do teu tronco
e com o bico
desenharei o doce fruto.
2009-09-30
Às vezes tu sonhas que estás presa dentro de um novelo da lã
de onde não consegues sair por não encontrares o fio à meada.
Às vezes sonhas que dentro desse novelo há teias infinitas
de ideais e teorias que alguma aranha teceu para te perderes
e por não encontrares saída sentes na barriga um frio subterrâneo,
como aquele que sentem os mineiros de volfrâmio
sepultados pelo gás da mina.
E se nesse sonho eu entrasse para te resgatar do pânico
com um lírio cortado atravessado na minha boca
e pela janela do sonho pudesse sair contigo à varanda
para estendermos num arame a roupa da cama depois de lavada
os mesmos lençóis e cobertores de lã com pequeníssimas linhas cosidas
na mesma teia que algum filósofo inventou, decerto para sonharmos
Ou então para eu te poder chegar uma, a uma, as molas
para prendermos o nosso sonho ao sol quando houvesse sol
e também ao vento quando ventasse para segurarmos as pontas.
Sabes, também tenho noites em que acordo perdido no alto mar
e procuro outro barco onde houver quem me saiba ler as estrelas.
2009-09-22
onde a criança revolvia o passado
e dele nasciam ovos e embriões
de muitas mães celestiais
que eram truncados
pelo desejo dos filhos.
(...)Havia na casa dos avós
portas impensáveis por abrir
e a criança concebia uma máscara
para fingir que se encontrava
prisioneira do seu tamanho
porque estava sempre de cócoras
no presente e o futuro
era um tempo de outra altura.
(...)Até que um dia
a criança se levantou do silêncio
e voou da janela de casa
para que os pais assistissem
ao seu nascimento donde do fundo
da carne, da pele e dos ossos
se escreveu no céu uma nova língua
e se ergueu outra cidade.
2009-08-27
2009-06-23
surgiu a ave
que me bebeu
as metáforas
destes improváveis
versos.
No crepitar da lava
a que nos entregavámos
soçobraram cristais
e algumas pedras fundidas
tatuadas pelo arrefecimento
da superfície.
Pesam-me nas
pálpebras
os reflexos
do sol
de tempos antigos.
Porque há nos teus
cabelos um pincel
e estas mãos
com uma tinta indelével
a desaguar-me
dentro dos olhos.
