2009-09-30

para ti que sabes decifrar o conteúdo latente deste sonho

Às vezes tu sonhas que estás presa dentro de um novelo da lã
de onde não consegues sair por não encontrares o fio à meada.

Às vezes sonhas que dentro desse novelo há teias infinitas
de ideais e teorias que alguma aranha teceu para te perderes
e por não encontrares saída sentes na barriga um frio subterrâneo,
como aquele que sentem os mineiros de volfrâmio
sepultados pelo gás da mina.

E se nesse sonho eu entrasse para te resgatar do pânico
com um lírio cortado atravessado na minha boca
e pela janela do sonho pudesse sair contigo à varanda
para estendermos num arame a roupa da cama depois de lavada
os mesmos lençóis e cobertores de lã com pequeníssimas linhas cosidas
na mesma teia que algum filósofo inventou, decerto para sonharmos

Ou então para eu te poder chegar uma, a uma, as molas
para prendermos o nosso sonho ao sol quando houvesse sol
e também ao vento quando ventasse para segurarmos as pontas.

Sabes, também tenho noites em que acordo perdido no alto mar
e procuro outro barco onde houver quem me saiba ler as estrelas.

9 comentários:

gabriela rocha martins disse...

às vezes sonhar

acordado dói


às vezes
tantas vezes


.
um beijo
( com uma mola na boca )

a tal que sabe decifrar o conteúdo latente desse sonho disse...

Revejo em ti a mesma eloquência e sensibilidade que tanto me cativa e atormenta...

Lídia Borges disse...

Magnífico texto!
Envolvente, cheio de ternura, apesar dos novelos e dos enredos das teias... [Inventadas por um filósofo que gosta de fazer sonhar]

Lindo!

Delirius disse...

Apanhaste-me em dia fragil, imagina, eu que sou sempre tão "forte"!
Emocionei-me com o teu poema, porque tu és quase sempre tão "forte", e hoje estás fragil também!
É..., emocionei-me!
Que bom que ainda procuras o teu barco gémeo, eu, confesso, já desisti.

Beijo, Zé Miguel.

Gilda disse...

Queixume
Unção do halo extinto.

sandra disse...

se é, a vida é cheia de teias.........
com muito carinho um grande beijo

Stella Tavares disse...

Seus poemas é que são como teias que nos prendem e vão se misturando aos nossos sentimentos.
Adoro o poema que me enviou. Te agradeço muito por sua participação.
Bjs

luís filipe pereira disse...

Um texto prodigioso; penelopeano, fio a fio um novelo que vai, por dentro das imagens belíssimas, entramelando o leitor. "teia que algum filósofo inventou", se me permite ouso arriscar, pela minha recepção/leitura, g. Deleuze, em virtude do tom rizomático que, deliciosamente, encontrei neste texto.

(agradeço-lhe a amabilidade de ter visitado o meu blog e o comentário que imprimiu nele).
luís filipe pereira

José Miguel de Oliveira disse...

Com as teias do tempo me unto e me desenlaço para dizer obrigado.