2009-11-27

meu amor
agora que já não me ouves
gostava ainda de te dizer isto

quando te disse que te amo imaginava
ainda que continuaríamos de mãos dadas
como duas crianças no regresso da escola

mas acontece que na casa nova onde moro agora
há apenas as flores que me trazes aos sábados
e a caixa dos ossos onde me meteste num domingo

e por isso lembra-te que quando parti, não foi porque me tenhas dito
que aquela casa onde moravamos os dois era tua, só tua, de mais ninguém

não tens que te sentir uma assassina por me terem
encontrado morto se apenas pediste para te deixar só

porque no fundo eu só mudei de casa, meu amor.

2009-11-10

Em tempos houve uma estrela ou uma Ave do Paraíso
que poisou no parapeito do meu ventrículo esquerdo.

Talvez fosse um cometa. Uma estrela cadente.
Trazia na cauda um raio, uma lâmina, um metal.

Como um pássaro de fogo incinerou as árvores
e deu a beber a morte dos homens a todos os animais.

Talvez as crianças sentissem que se mudara o tempo
por não haver ninhos onde inventar Primaveras.

Talvez a estrela cadente se mascarasse de outro ser
como uma lua- ou um satélite que orbitava o mesmo sol.

O certo é que decidi seguir o conselho médico evitando as aves
não fossem elas causar-me um sopro no coração.

2009-10-09

Um dia haverá
em que talvez encontres
o portão de uma velha casa.

Atreve-te a entrar - avança
um a um os degraus
até encontrares o quarto
onde encerrados
os meus olhos
se alagam de castigo.

Abre depois as janelas
para que a luz
se reflicta nas águas
onde mergulhado
eu sonhava
o infinito das horas
em que entardecias.

Dar-me-ás às mãos
o teu corpo a beber
e como se tu fosses
uma árvore,
eu felino
escalarei o teu tronco.

Ou como um pássaro,
me abrigarei dentro de ti
e quererei fazer ninho
dentro do teu tronco
e com o bico
desenharei o doce fruto.

2009-09-30

para ti que sabes decifrar o conteúdo latente deste sonho

Às vezes tu sonhas que estás presa dentro de um novelo da lã
de onde não consegues sair por não encontrares o fio à meada.

Às vezes sonhas que dentro desse novelo há teias infinitas
de ideais e teorias que alguma aranha teceu para te perderes
e por não encontrares saída sentes na barriga um frio subterrâneo,
como aquele que sentem os mineiros de volfrâmio
sepultados pelo gás da mina.

E se nesse sonho eu entrasse para te resgatar do pânico
com um lírio cortado atravessado na minha boca
e pela janela do sonho pudesse sair contigo à varanda
para estendermos num arame a roupa da cama depois de lavada
os mesmos lençóis e cobertores de lã com pequeníssimas linhas cosidas
na mesma teia que algum filósofo inventou, decerto para sonharmos

Ou então para eu te poder chegar uma, a uma, as molas
para prendermos o nosso sonho ao sol quando houvesse sol
e também ao vento quando ventasse para segurarmos as pontas.

Sabes, também tenho noites em que acordo perdido no alto mar
e procuro outro barco onde houver quem me saiba ler as estrelas.

2009-09-22

Havia na casa de todos os avós um sótão
onde a criança revolvia o passado no baú
e dele nasciam ovos e embriões
de muitas mães celestiais
que eram trancados a cadeado
dentro da imaginação
pelo desejo dos filhos.

Havia na casa dos avós
portas impensáveis por abrir
e a criança concebia uma máscara para fingir
que se encontrava prisioneira do seu tamanho
porque estava sempre de cócoras, no presente
e o futuro era apenas um tempo
com um traço de outra altura.

Até que um dia a criança se levantou
como se assistisse
ao descer de uma cortina, depois do teatro
e com as mãos sacudiu o mofo dos velhos casacos
com o mesmo pó das penas dos anjos
arrancadas aos pássaros de um céu
que eu não encontro.

2009-08-27

o caminho mais íngreme
é melhor que se faça
sozinho.

evitemos sacrifícios
alheios

não vá a terra
despegar-se

e arrastar na avalanche
o nosso melhor amigo.

2009-07-14

Procura-se o verbo III
(o Testamento)

Foi ontem dado a conhecer
o testamento do verbo.

O verbo que como sabem foi encontrado
morto, intransitivo e a sorrir ao lado
da sua companheira também falecida
- o adjectivo feminino singular.

Depois de ter sido divulgado junto da nossa fonte
a vontade expressa no testamento do verbo
adensam-se as suspeitas em torno destas duas mortes
que se julga se terem tratado de um suícidio conjunto
e não de um homícidio do adjectivo feminino
seguido de suícidio do verbo
como inicialmente se pensou.

Irónica é a forma com que presumivelmente
o verbo premeditou este desenlace
tal como podemos constatar no testamento entregue
ao seu advogado e comunicado à sua família
e que passamos a transcrever:

Deixo aos meus pais substantivos
o usufruto de todos os meus bens.

O meu pai pode usar as minhas roupas
e a minha mãe ler os meus livros.
O meu pai deverá entregar a minha mãe as camisas
estampadas com flores
para que ela as lave e as seque ao sol
quando houver sol e também ao vento
para que as flores possam respirar
e voltar a florir.

A minha mãe deverá ler ao meu pai
aquela história do meu livro preferido:
"era uma vez um príncipe que conheceu uma
princesa e viveram felizes para sempre".

O meu segundo primo
pronome possessivo poderá agora desfrutar
da nossa prima pronome reflexo
como outrora fizemos na primeira pessoa do plural
sem advérbios de modo
nem complemento circunstancial de lugar a interferir.
Devo confessar que foi com eles que iniciei
a minha vida sexual
antes de conhecer o adjectivo feminino singular
que fez de mim um predicado crescido.

Aos meus avós paternos, sintagmas nominais
e maternos, sintagmas verbais
deixo todos os meus escritos
e os direitos de autor de todas as minhas obras.
São os únicos em quem confio
porque sei que não assinarão nenhum
novo acordo ortográfico.

2009-06-23

Diz-me de onde
surgiu a ave
que me apagou
as metáforas
destes improváveis
versos.

No crepitar da lava
a que nos entregavámos
soçobraram cristais
e algumas pedras fundidas
tatuadas pelo arrefecimento
da superfície.

Pesam-me nas
pálpebras
os reflexos
do sol
de tempos antigos.

Porque há nos teus
cabelos um pincel
e estas mãos
com uma tinta indelével
a desaguar-me
dentro dos olhos.

A minha pele
um pincel
e o peso do sol
a escorrer-me das
das mãos
para dentro dos olhos.

2009-06-09

Degrado-me neste
degredo lento do sul
com a luz que me queima
a pele
e a esperança
de me ver devolvida
a vida de outra latitude.

A norte a morte
é mais súbita
mais a pique.
Sei-o sempre que regresso
e parto e quebro
como os muros de granito
onde serei sepultado.

2009-06-08

Procura.se o verbo II

Foi encontrado morto e intransitivo o verbo.
Na altura do seu desaparecimento
os seus pais comunicaram à polícia
que o verbo vestia calças de ganga azuis
e uma camisa estampada com flores...

Contudo, segundo divulgou uma fonte
próxima da família do verbo
este abandonou a casa dos pais
praticamente nu
apenas coberto por um xaile.

A nossa fonte adiantou ainda que o verbo
teria tido um séria discussão com o pai
que o queria impedir de assumir o presente
do indicativo na primeira pessoa do singular
com a sua meretriz
e assim forçado o verbo
a tomar a decisão de fugir.

Em pleno acto de desespero
por se ver forçado
a abandonar a casa dos seus pais
presume-se que o verbo terá posto em prática
a sua função transitiva ao ar livre e
até à exaustão das suas forças.

A sua companheira meretriz foi também
infelizmente encontrada morta ao seu lado
no pretérito perfeito da primeira pessoa do singular
Trazia apenas vestida uma camisa estampada com flores.

Segundo a autópsia já conhecida
e comunicada pela polícia
que assim resolveu este misterioso
desaparecimento
no momento em que se presume terão morrido
ambos estariam bastante felizes
dados os vestígios de alegria
encontrados em ambos os sexos
e o sorriso irónico com que se despediram
da vida estampado em seus rostos.