2015-02-14

Uns Versos de Engate com um gato preto a atravessar a rua


Percorri cem mil caminhos
em mil cidades passei
Se mil mulheres eu conheça
se com cem mulheres eu me deite
cem bocas me beijem, duzentas mãos que se abram
duzentos ouvidos que escutem
duzentos olhos que vejam...

Só dois eu quero que saibam
só dois eu quero que sintam
milhões de lugares onde estive
os cem mil caminhos andados
as mil cidades passadas
milhões de mulheres que eu olhei...

Por milhões de beijos que eu dê
os teus decerto eu queria
os teus, os únicos, não sei.

(o gato preto a atravessar a rua era só para despistar)

2015-02-11

22- vemo-nos amanhã by José Miguel de Olivei
vemo-nos amanhã. amanhã talvez o dia seja mais luminoso e eu te encontre ao fim da tarde, quando o sol estiver no exacto momento do entardecer, não sabendo se vá ou se fique. amanhã vemo-nos de certeza. depois da tua aula de anatomia, depois da minha de geografia, que podiam ser ambas de metafísica. vemo-nos porque tem de ser assim,
vemo-nos porque os porquês já não se admitem nos dias de hoje. e por isso é mais fácil ou mais prático que nos vejamos. porque a tua é uma aula simples sobre o corpo, e a minha, igualmente simples, mas sobre a terra. vemo-nos depois das aulas que são ambas metafísicas, porque ambas são as duas, e a minha e a tua são de certeza aulas sobre a essência do mundo, e a essência das coisas é metafísica bastante, tal como a liberdade, o amor e a vida. vemo-nos amanhã, porque amanhã é um novo dia, os outros foram. passaram. passaram na convicção do passado ser uma essência da história entre o que aconteceu e o que ficou por acontecer. por isso, nos vemos amanhã, porque amanhã é um novo dia. porque o sol felizmente não se cansará de reaparecer até que o último homem o comprove e na sua derradeira aparição o faça sorrir de tédio ou de cansaço. por saber que milhões e milhões de vezes o sol inspirou a vida e a vida reconheceu a luz até à noite,
amanhã vemo-nos. tu vestida de noite com aquele vestido de cetim que te torneia o corpo de mulher pronta e madura e eu amargurado pela certeza que essa tua aparição é tão exacta como se estivesses de bisturi na mão pronta a abrir-me as entranhas na convicção de recolheres nas vísceras a minha alma. estarei com as mangas da camisa arregaçadas para que comproves que os meus braços em volta do teu corpo têm a mesma latitude. vemo-nos amanhã, na certeza de que nos tornaremos anatómica e geograficamente perfeitos, únicos e absolutos num abraço que dispensa o sol.
afinal a noite tem esse benefício de esconder a luz para que os homens e as mulheres se compreendam pelo tacto.

2014-07-09

Quando se ama, ama-se! Nunca há razões, nem explicações ou equações, ou corroborações para amar. Como também não há para deixar de amar. O amor é precioso precisamente por isso. Por ser como uma grande fogueira que se acende num sei lá quando, nem onde, nem como. Ou por ser como um rasgo de luz que nos aquece qualquer que seja a distância a que estejamos. Decerto é por não ter razões nem explicações, que o amor complica tanto o nosso coração. Um pai ou uma mãe que amam um filho, amam-no incondicionalmente e sempre. Amam-no por fazer parte de si! Quando verdadeiramente se ama outro alguém que não é "nosso", também desejamos essa pessoa como parte de nós. Ou então, desejamos que estando ela fora de nós, afastada de nós, esteja bem e que tenha sempre consigo aquela luz que nos trouxe e que essa luz a aqueça sempre. Por lhe desejarmos o bem, por amor com todas as cores do arco íris, como quem autenticamente quer o melhor (aquilo acima do qual nada se pode pensar) como desejamos a quem viaja e temos de ver partir, porque amámos…Mas nessa partida, vá o ser que amámos para onde for, para o paraíso, para Marte ou para os braços de outro alguém que num rasgo de luz outra vez começou a amar, ela permanece connosco, e pelo bem que lhe queremos, ela irá esvoaçar carregando na leveza das suas asas um pouco de nós também. E isso é amor. Verdadeiramente!

2014-03-20

Para celebrar 10 anos deste blogue... Foi assim que ele começou no dia 14 de Janeiro de 2004:

2004-01-14

A palavra pode ser a única farmácia de serviço na noite da derradeira prescrição médica.

2014-02-25

As ondas do mar são como as mulheres
às vezes serenas e dóceis,
como a frescura de um baptismo
que nos lava da certeza
de uma morte infinita.

 Outras vezes agigantam-se
 e são um mar revolto de fome
 e de sede
 de conquista da terra.

Agigantam-se tenebrosamente
para engolir a servil lida masculina
e são a espuma a borbulhar
como o clamor de um mar exaltado.

Essas mulheres com íntimos abismos
de uma profundidade oceânica
elas são o vício e o precipício
que enleva a nossa verticalidade.

Elas são o oceano da nossa alegria.

2013-11-28

para o pescador 
Que seja decretado ao mar
um minuto de silêncio
e que não se inquiete o lamento 
nem a saudade da mulher
onde o pescador
embarcou o coração.

Diante de nós o seu tamanho 
é de uma altura igual
ao das ondas gigantes 
aquelas que ultrapassam
o limite vertical da distância
entre os olhos

o ponto mais baixo
para o qual a água desce.



2013-05-08

Quando me sentir estar morto decidirei talvez procurar uma lente para minuciar aquilo que perdi por obnubilação das vistas.
(Não dos olhos, que esses míopes, nem um palmo conseguem ver à sua frente, devido à condição sociopolítica de um meio ambiente de esquizofrenia paranoide com alucinações e delírios que subjugam o direito inalienável à manutenção do corpo e da vida condigna).
Vistas inquietas que me fogem para lá da fronteira destas quatro paredes porque a sua condição é unicamente a política externa da alucinação guliveriana das mamas da vizinha.
Horizonte é delírio bastante  para zarpar pela janela e ir direto ao assunto ou não fosse a minha condição geoestratégica impossibilitante devido ao formigueiro liliputiano de um viriato aquartelado em quatro paredes caiadas com cheirinho a arlequim. *
Estou a imaginá-la, por magia, nua, em frente ao espelho com os seios apontados como faróis à mesa das negociações, sem a consciência dos olhos vir ao de cima,  ao mesmo tempo que as vistas deambulam num solilóquio interior com sintomas de apoplexia provocada pelas casas raianas das vizinhas pregadas ao televisor.
Apoplexia provocada pelo derrame quimérico de que cada um de nós pode passar o próximo semestre até à eternidade sem rugas, nem patas de galinha a comerem-nos os olhos.
Nenhum espelho capaz de nos devolver a singular e universal condição humana crescente e senescente que nos faça aproximar da origem...

E por isso, quando sentir que estiver morto, o melhor é permanecer de olhos fechados e com a cara tapada
e guardar o último e fugaz sorriso sem desvios oftalmológicos
nas nuvens de amor e de tabaco -
em ambos casos produzidas pela combustão das bocas...
em ambos os casos um vício
ou um precipício do espelho do que somos...

*e não alecrim

2013-05-07

Trago na algibeira estes papéis confusos para o esqueleto
como se fossem mapas de uma felicidade adiada
pelo metal que nos retalha a carne até ao osso.

E trago no coração uma carta de amor
para dar à boca de uma criada com fome.
Um arcaboiço sem pão para dar aos filhos
e nenhum um corta-papéis para se multiplicar.

2013-01-21

na minha cabeça
há caudais
de palavras
e correntes
onde navego
à deriva
procurando
que farol
do teu nome
me liberte
da névoa
do esquecimento
e eu encontre
o caminho
de regresso.

2012-12-10

Diário de um internamento - dia 1

Não sei bem se sou ou virei a ser
muito mais do que este corpo amortalhado
na maca de uma sala de observações de um hospital...

há na minha cabeça ecos
de mortais gemidos
para onde nenhum Caronte
me há-de enviar
e tudo em meu redor
é uma explosão de vespas
com seu ferrão venoso
espetando aqui e ali
um soro de esperança
um analgésico de lucidez
para ludibriar a morte
ou retardar a dor...

implodem-me para dentro dos olhos
os neons que me matêm acordado - até quando?

Diário de um internamento - dia 2


Boa noite. Está difícil adormecer. O hotel é bom, mas os vizinhos morrem de vez em quando. Queria pedir-te dois favores para amanhã: traz o meu carregador de telemóvel que está na mesinha de cabeceira do teu lado e se puderes, compra-me um fones pretos de silicone nos chineses para eu ouvir o relato do Porto. Obrigado. Beijo

Diário de um internamento - dia 3

Nós os dois somos amigos. Se há coisas que não mudam - a nossa amizade será uma delas! De resto estou na mesma, só tenho dores a engolir, mas já dormi muito melhor porque hoje não morreu nenhum vizinho...



2012-06-05

Aqui estou. Enredado.

Como se fingisse tecer o poema, vou fiando aqui e ali palavras banais, num jogo de paciência.

Num jogo chinês da paciência onde as peças não encaixam.

Queria decerto adormecer para encontrar autêntica guarida que não pague imposto.

Queria decerto enebriar-me num ventre que não queira operar em mim revoluções industriais impossíveis ou então que operasse a revolução dos verdadeiros direitos humanos.

Queria decerto não estar enredado nesta roleta russa que me maltrata o sangue.

Um suicídio ao contrário que empurrasse para dentro do poema o torpor e me afagasse este desassossego.

(Mas como dizer isto ....
Tudo no mundo está quase dito e eu que vivo tanto tempo depois,
depois de dizer o que está dito, só me sobram as palavras de uma inteligência diminuída que precisa de descanso).

E nem ao longe, as centelhas dos barcos me parecem zarpar desencalhando a minha porta.

2011-10-27

Era uma vez um prego que se soltou
da ferradura do cavalo de um general.

Era uma vez uma ferradura que se soltou
da pata do cavalo de um general.

Era uma vez um cavalo coxo de um general
que fez cair abaixo da cela o general.

Era uma vez uma força do exército de um general
uma força do exército sem comando do general.

E assim como assim
devido à causa primeira,
segunda e terceira
toda a infantaria caiu
depois a cavalaria caiu
depois a artilharia foi bombardeada
depois a engenharia ruiu
depois a intendência fugiu
depois a comunicação deixou de ser comunicação.

Era uma vez um país que perdeu a guerra
por causa de um prego que se soltou
da ferradura do cavalo
de um general...

Um prego?!

2011-07-15

Agora que o fim do medo se avizinha,
quem me dera que carregar comigo
todos os meus amores,
talvez assim se acabasse de vez
esta agonia de largar
para um deserto
de onde sabemos não haver regresso
nem baptismo que nos lave
de um perdão impossível.

Por não haver pelo menos duas mãos
que nos acalentem o coração
e nem a saliva nos baste para narrar a fé...

Talvez a estrada nos vença
se nela não tivermos o cuidado de deixar
pelo menos uma marca que alimente o caminho

de um outro peregrino.