2014-03-20

Para celebrar 10 anos deste blogue... Foi assim que ele começou no dia 14 de Janeiro de 2004:

2004-01-14

A palavra pode ser a única farmácia de serviço na noite da derradeira prescrição médica.

2014-02-25

As ondas do mar são como as mulheres
às vezes serenas e dóceis,
como a frescura de um baptismo
que nos lava da certeza
de uma morte infinita.

 Outras vezes agigantam-se
 e são um mar revolto de fome
 e de sede
 de conquista da terra.

Agigantam-se tenebrosamente
para engolir a servil lida masculina
e são a espuma a borbulhar
como o clamor de um mar exaltado.

Essas mulheres com íntimos abismos
de uma profundidade oceânica
elas são o vício e o precipício
que enleva a nossa verticalidade.

Elas são o oceano da nossa alegria.

2013-11-28

para o pescador 
Que seja decretado ao mar
um minuto de silêncio
e que não se inquiete o lamento 
nem a saudade da mulher
onde o pescador
embarcou o coração.

Diante de nós o seu tamanho 
é de uma altura igual
ao das ondas gigantes 
aquelas que ultrapassam
o limite vertical da distância
entre os olhos

o ponto mais baixo
para o qual a água desce.



2011-10-27

Era uma vez um prego que se soltou
da ferradura do cavalo de um general.

Era uma vez uma ferradura que se soltou
da pata do cavalo de um general.

Era uma vez um cavalo coxo de um general
que fez cair abaixo da cela o general.

Era uma vez uma força do exército de um general
uma força do exército sem comando do general.

E assim como assim
devido à causa primeira,
segunda e terceira
toda a infantaria caiu
depois a cavalaria caiu
depois a artilharia foi bombardeada
depois a engenharia ruiu
depois a intendência fugiu
depois a comunicação deixou de ser comunicação.

Era uma vez um país que perdeu a guerra
por causa de um prego que se soltou
da ferradura do cavalo
de um general...

Um prego?!

2011-03-21

Ainda que todas as bocas se arrebatam ao som do hino de trompetes e que a noite pese séculos e séculos de silêncio cantando os naufrágios dos moinhos de vento cantando os naufrágios dos faróis da ilusão. Ainda que a manhã indecisa demore e que gigantescas ondas se abatam turbulentas inquebrantáveis ondas que nos varram deste chão e que a todos os homens e mulheres emudeçam. Ainda que o mar engula todos os navios e barcos usurpando o perfume de Penélope em terra no último fôlego de Ulisses... Um poeta é quanto baste para o erguer do abismo e os vermes não calarão o seu grito. * dia Mundial da Poesia - Bilioteca Municipal de Vila do Conde

2011-02-04

apetece-me abrir-te
e escalar-te
como se fosses um peixe
de prata
revolver-te no lume
que se atiça
nas furnas da pele
e dar-te a beber
da originária fonte
a torrente
que se inunda
na boca.

2011-01-25

No princípio dos tempos era a noite
e o dia pronto a nascer dentro noite
dentro do dia havia uma casa
e um homem num quarto
dentro da casa
no princípio dos tempos
havia no quarto dentro da casa
um homem
e uma mulher
que gerava frutos dentro do ventre
que se acendiam como luzes
para fora do dia
onde uma criança brincava
e envelhecia
na esperança que uma árvore
lhe nascesse por debaixo dos pés
para a fazer levitar
até à janela do quarto do homem
por não suportar
escutar nele o gemido
louco da mãe
que luzia
para fora da noite.

2010-11-23

Por não trazer no equipamento
um botão de desligar

inclino-me aprumado para a vertente
do cansaço

guardando nos ossos a inscrição lapidar
do esquecimento.

2010-10-14

A propósito do resgate dos mineiros no Chile e desconfiando da ironia do ciclo do eterno retorno, lembrei estas palavras que Pablo Neruda nos deixou na sua autobiografia, publicada em 1974, depois da sua morte:" (...) o meu prémio é esse momento grave da minha vida quando na mina de carvão de Lota, sob o pleno sol na salitreira abrasada, da cova escavada na falésia, subiu um homem como se tivesse subido do Inferno, com a cara transformada pelo pó, e estendendo-me a mão endurecida, essa mão que leva o mapa da pampa nos seus calos e nas suas rugas, me disse com os olhos brilhantes: 'já te conhecia há muito tempo, irmão'. Esses são os louros da minha poesia, esse buraco na pampa terrível, de onde sai um trabalhador a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile disseram muitas vezes:'tu não estás sozinho; há um poeta que pensa no teu sofrimento'." - PABLO NERUDA, Confesso que he vivido.
* são muito raras as incursões crónicas neste blogue, mas dada a imposição da circunstância e a aridez poética que me assiste, só posso curvar-me de novo perante um gigante e dizer-lhe, que hoje, vi a sua história repetir-se.

2010-09-22

Existem diversas modalidades do tempo - sabes?! Ser lento como uma tartaruga ou apressado como uma lebre pode alterar a minha esperança de vida. E por isso, se houvesse a eternidade para estar contigo, eu não teria pressa, mas como penso sempre que tudo acaba, decidi telefonar para te dizer que te quero ver quanto antes. O outro tempo que faz com que o céu esteja a chorar é óptimo para irmos ao cinema. Que dizes?

2010-08-15

Nada sabeis do milgare da vida
nem do ofício da criação
- nada sabeis.

Conservai ainda esta jóia
de ouro para subornar
o barqueiro de Caronte.

Porque nada sabeis do lume
nem das cinzas
- porque estais mortos.

2010-07-03

As mãos

as tuas mãos são as mãos mais perfeitas meu amor
e tu bem sabes porquê.
as tuas mãos não são mãos,
mas um círculo em redor de mim
como os anéis em redor de Saturno.
as tuas mãos são como o tronco de heras
que cresce em volta do pinheiro manso no nosso jardim.
tu sabes que o pinheiro não se importa da companhia das heras.

as tuas mãos nunca enxugaram as lágrimas.
mesmo quando parti e as tuas lágrimas correram
correram com a mesma certeza que o rio corre para o mar
na exacta direcção das curvas do teu rosto
umas em direcção à boca
outras precipitando-se do teu queixo
como pingos de chuva, em direcção ao abismo da terra.
as tuas mãos nunca enxugaram lágrimas
porque a terra te pede humidade para crescer
e a tua boca água para matar a sede.

as tuas mãos são flores de veludo.
suaves lilases,
rosas,
orquídeas,
papoilas, margaridas…
as tuas mãos são beijos,
as tuas mãos são bússolas,
manhãs de céu primaveril
que me abrem a porta para comprovar o sol.
as tuas mãos são os teus dedos
e os anéis de noivado e da aliança.

às vezes as tuas mãos são o sal que tempera a comida
o açúcar exacto no café
as mãos de ferro que me brune as camisas
as mãos de aço que me levantam como gruas nos momentos difíceis.
outras vezes
as tuas mãos são pirómanas
porque incendeiam cada poro da minha pele
as tuas mãos também são rebeldes
mãos de carne,
de músculo e de osso,
mãos de coração arritmado
por força do compasso mútuo das nossas ancas,
mãos firmes que me fazem arder até mais não.

as tuas mãos desenham as mesmas palavras que a tua boca.
as tuas mãos escrevem cartas de amor
e nelas às vezes eu leio saudade
que é uma palavra complicada de traduzir noutras línguas
e outras mais naturais
como paz,
amor,
mãe,
irmão,
que são palavras simples sem prefixos nem sufixos,
nem aglutinações ou composições,
ou coisas demais complexas que as mãos não entendem.

as tuas mãos e as minhas nunca dirão adeus.
de mãos dadas
dizer adeus é impossível.